Apresentação

Em Janeiro de 2011, o policial Michael Sanguinetti fala às jovens da Universidade de Toronto, no Canadá, que vinham sendo amedrontadas por uma onda de violência sexual que tomava o campus. Em seu discurso, Sanguinetti pede que “as mulheres evitem se vestir como vadias” para que não sejam vítimas de estupro. No dia 3 de abril daquele ano, três mil pessoas tomaram as ruas de Toronto, dando início ao movimento que se alastrou mundo afora e que no Brasil ficou conhecido como Marcha das Vadias.

 

Por que Vadias?

O ideário disseminado pelo patriarcado nos ensina que vadia é uma mulher vulgar, promíscua, que não esconde seus desejos sexuais e que isso é algo negativo. Que existem mulheres para se casar e mulheres para fazer sexo. A palavra vadia é usada para ofender e depreciar a imagem da mulher. Por isso, escolhemos nos apropriar do termo “vadia” e imprimir nele outro significado. Para que não possam mais nos ofender com a palavra que passou a traduzir parte de nossa luta.

O patriarcado nos ensina que se uma mulher é estuprada é porque ela estava usando roupas provocantes ou teve comportamento promíscuo e, portanto, pediu por isso. Ele nos ensina a esconder nossos corpos e nossos desejos como se fossem ofensas, mas se esquece de ensinar aos homens que uma mulher de mini-saia, vestido, short ou decote não está pedindo para ser estuprada, está apenas exercendo o direito de escolha e usufruindo da autonomia sobre seu próprio corpo.

Quando o senso comum nos diz que fomos estupradas porque estávamos usando roupas consideradas “provocantes”, diz nas entrelinhas que os homens são bestas selvagens incapazes de se controlar, que todo homem é um potencial estuprador.

Nós lutamos para derrubar esse pensamento que vitimiza mulheres e homens. No dicionário, o significado de vadio é aquele que não trabalha. Mas o senso comum criou a ideia de que vadias são as mulheres que agem de acordo com seus mais diversos desejos, especialmente os de caráter sexual. Porém, nós defendemos que atender aos nossos desejos, independentemente do julgamento alheio, é uma demonstração de liberdade e autonomia. Daí vem a máxima: “se ser vadia é ser livre, somos todas vadias!”.

 

A Marcha em São Paulo

A versão paulistana da Marcha das Vadias ocorreu pela primeira vez em 4 de junho de 2011. No ano seguinte assumiu a forma de um coletivo feminista que, alinhado à centelha que deflagrou as marchas ao redor do mundo, luta pela autonomia da mulher sobre o seu próprio corpo e também pela desculpabilização das vítimas. Isso significa lutar para que a sociedade compreenda que a vítima de violência sexual não pode ser responsabilizada pelo crime cometido contra ela. Significa lutar pela punição dos estupradores e agressores, únicos responsáveis pela violência.

Nossa militância é feminista. Viemos agregar a esse amplo movimento a luta política que atravessa nossos corpos e nosso direito de decisão sobre eles. Além de marchar anualmente nas ruas de São Paulo, fazemos reuniões quinzenais para deliberar sobre pautas da agenda feminista e para a organização de eventos e reuniões mensais de apoio à mulher (Rede de Apoio Vadias), além de promovermos debates e outras atividades culturais e políticas. Os nossos eventos são abertos a todos, mas as reuniões de deliberação e de apoio são fechadas à participação masculina por entendermos que são espaços necessários de empoderamento feminino, uma vez que os homens já têm protagonismo em muitas outras instâncias sociais. Mantemos também uma página no Facebook, no Twitter, no Flickr e um blog, nos quais postamos conteúdos de caráter feminista.

Para entrar em contato com a Marcha das Vadias de São Paulo, basta escrever para marchadasvadiassp@riseup.net.

 

Por que o Topless?

O topless é uma escolha individual e seu sentido é subjetivo. Para marchar, a única regra é acreditar na causa. A escolha pelo topless é legítima e apoiada porque acreditamos que a política passa pelo corpo e usar o corpo para protestar é uma forma de fazer política e fortalecer a luta pelos direitos da mulher, sobretudo pelo direito à autonomia do corpo.

 

Outras Marchas

Após a primeira marcha, o movimento se alastrou. Foi repetido e reinventado de forma autônoma em diferentes países, cidades e estados, mostrando que as mulheres dizem não à violência.

No mundo, a marcha aconteceu e acontece em diversas cidades de países tão diferentes quanto Alemanha, Argentina, Estados Unidos, Holanda, México, França, Colômbia, Inglaterra, Peru e Portugal.

No Brasil, a marcha aconteceu e acontece em mais de 25 cidades, entre elas São Paulo, Vitória, Recife, Fortaleza, Salvador, Rio de Janeiro, Goiânia, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Campinas, Ponta Grossa, Pelotas, Florianópolis, Porto Alegre, João Pessoa, Campina Grande, Santa Maria, Londrina, São José do Rio Preto e Cuiabá.

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